Adeus Amigo

A boca ressequida estava de tanto sibilar mentalmente cartas de gente que nunca sonhara conhecer, sentia imenso prazer em entreolhar letras, linhas, parágrafos e atravessar travessões de tantos desconhecidos desse pequeno mundo vívido e luzido de papel branco, tinta negra e pontos finais sem fim.

Mania, assim definiras tal jeito próprio de ser, mania de ser seja quem fosse, de fingir ser normal numa terra de loucos que viviam pouco, mas viviam como queriam. Vagavam todos trombando uns aos outros, tapando o ouvido para aquilo que parecia importante e imponente, mas despercebido passava já que tempo não era o forte de quem trombava com tudo que estranho fosse até que transformasse em normal e simplesmente passasse pelos olhos de qualquer um como comum.

Foi amando que se tornou grande, com sentimento de querer bem outrem leu
num canto de carta jogado ao chão a oportunidade de mudar de vida, uma vida sem regalias, regada a muita emoção, muito choro, muito riso, muito amor de outros pra outros. Roubaria de todos, a chance de dizer por letras o que achavam belo num envelope pardo colado com uma lambida simples na aba, selada como um segredo que desvendado seria apenas pelo destinatário. Assim esperava ser, pobre remetente, jamais receberia a resposta, sua mensagem parara nas mãos de um apaixonado pela vida incomum dos humanos.

Saqueava carteiros em busca de algo novo, alheio. Vivia absorto em muitas histórias inacabadas, absorvia de muitos o direito de pontuar finalmente com um ponto final, feliz dizia-se a única pessoa comum num mundo de doidos, vangloriava-se de admitir curiosidade pela vida do próximo e não se envergonhava em interceptar essas vidas e passar horas tentando desenhar na mente tudo o que passou a moça que escrevera ao namorado uma carta de despedida, dizia ela que não mais o veria, estava doente e em estado terminal, muito provavelmente estaria morta quando o namorado recebesse a carta. Pobre moça, o namorado nunca recebeu o recado e o ‘ladrão’ olhou, deu atenção por alguns dias, mas logo se atentou a outro caso. Simplesmente faleceu sem os pêsames merecidos ou não de um alguém que pra ela era importante.

Tragou a solidão ao ler companhias estranhas, mentiu pra si mesmo ao dizer ter amigos que nunca souberam quem ele era, chorou copiosamente muitas noites com contos de um ser sozinho que lia cartas de outros, se viu num bando de papel que queimado seria num acidente causado por uma panela no fogão e um envelope leve que flutuou da mão e caiu no fogo, suficiente pra desencadear um incêndio em toda a casa já que era tudo papel, onde se olhava via choros e risos de gente, que nunca chegaram onde queriam chegar.

Quase como indigente falece mais um curioso, que lia a vida sem se preocupar em escrever a sua.

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