Conto de Fevereiro – Adeus ‘amigo’

“… Beijos mãe,

Da filha que te ama muito.

Me perdoe!”

****

A boca já estava seca de tanto me jogar dentro dessas folhas sem fim, eram confissões, declarações, promoções e ações sem movimento algum, apenas letras postadas em sequencia. Desde criança que os parágrafos me fascinam, perdi a conta da quantidade de livros que já tinham passado pelas minhas mãos, me sentia o dono do mundo por conhecer tantas histórias diferentes, mas ainda assim faltava algo. Sabia que o s livros eram fruto da imaginação de algum escritor, que por mais que tenham sido inspirados em algum fato, muito raramente passavam exatamente como havia acontecido na vida real, queria conhecer lembranças e aventuras de pessoas de verdade, vasculhar e me sentir na pele de gente comum, como eu.

Curioso por natureza, andando pela rua de casa tropeço em um monte de papel que parecia ter caído do portão de meu vizinho, ao pegá-los percebo que são cartas, algumas contas e duas ou três cartas de pessoas, com selos belíssimos e uma letra muito caprichada nos envelopes, aquilo me fez saltar os olhos, era o que buscava todo esse tempo. Apesar do impulso em querer saber o que estava ali dentro, não fiz, pois seria muito cruel tirar daquele senhor o privilégio de abrir aquela carta, devia se sentir muito importante por receber uma correspondência destinada com exclusividade a ele, nunca passei por isso, deve ser realmente muito bom. Coloco a correspondência de volta apoiada no portão, dou uma última olhada antes de virar as costas e ir para casa. Dormi pouquíssimo naquela noite, não parava de pensar quem teria escrito aquelas três cartas, se é que vinham todas da mesma pessoa, se eram, porque não escreveu tudo em uma grande carta? Já estava exausto de pensar naquele monte de papel endereçado ao vizinho, caí no sono e dormi sem sonhar com nada.

Já é manhã, sinto os fracos raios de sol entrarem pelo buraco na janela, um pequeno furo, cheguei já estava assim. No relógio já marcam mais de 10h, dormi demais, costumo acordar bem mais cedo, melhor abrir logo a janela e deixar de preguiça, não posso me dar ao luxo de perder tantos minutos de mais um dia de vida. Janela aberta, percebo que choveu muito durante a madrugada, a rua está repleta de folhas de arvores e algumas folhas de papel, meu jornal já estava encharcando ao pé da porta, além disso consegui identificar alguns envelopes, presumi que fossem a correspondência que peguei ontem. Ainda cambaleando de sono, saí correndo e peguei tudo que consegui encontrar, voltei para dentro de casa e fiquei olhando a casa do velho vizinho, será que tinha acontecido algo? Acho melhor guardar tudo isso e esperar que encontre-o pela rua.

Não suportei, no segundo dia abri uma das cartas, me deitei na cama e me vi dentro de um mundo diferente aos livros de ficção e romances da prateleiras da sala.

“Papai,

meus dedos insensíveis não apararam a gota que correu pelo canto do olho esquerdo, ficaram imunes ao que antes era só aperto no peito, espremeu tanto que faltou ar, e via aos poucos transbordando aos olhos. As mãos, que ousaram não acudir ao perceber o desespero do sistema, forçavam enxugar o rio que corria pela face, quanto mais se secava, mais molhado ficava, soluçava sem cessar, pensando em parar, lembrei o porquê, foi o suficiente, diminuindo o fluxo de lagrimas aos poucos, a calma foi tomando conta, simples. Inspira e respira, achei melhor ir dormir.

Na manhã seguinte, ao sentir os olhos mareados do choro que me consumiu, senti raiva de mim. Uma fúria de doer o estomago, sensação de querer pular do andar que estava, não mais viver, pois sofrer por aquilo era o mesmo que desistir de tudo. Se não estivesse no térreo com certeza teria me suicidado nesse dia.

Meu amado e querido pai, por favor, dê um jeito em minha vida. Venha comrar comigo e me ajude a superar essa dor sem tamanho que me consome, não consigo mais ficar um dia sozinha, não vou suportar. Desde que ele se foi, nunca mais fui a mesma.

Não me ignore mais, venha logo.

Beijos, Ivone.”

Com os olhos embargados em choro pelo pedido desesperado de uma filha, dobrei a carta e coloquei de volta no envelope, me senti como o pai que via a filha implorar pela sua mão. Não era eu essa pessoa, por isso nada podia fazer a não ser encontrar esse velho e entregar-lhe a carta o quanto antes. Faria isso, mas antes precisava ler as outras duas cartas, fez de acordo com as datas estampadas nos selos, assim saberia exatamente o que acontecia na ordem cronológica dos fatos.

As cartas seguintes eram, uma pedindo mais uma vez que o pai a ajudasse e a segunda se despedindo.

“Pai,

Não serei mais a menina amorosa que criou, não aguento mais um dia aqui nesse lugar.

Não vou ficar enrolando muito. Estou subindo para a cobertura do prédio, vou pular. Talvez noticiem em algum jornal, mas prefiro que saiba por essa carta.

Te amo. Sempre te amei.

Filha.”

Não entregaria aquelas cartas, estava decidido, de nada mais adiantava. A mulher já estava morta. Vou apenas guardar essas cartas.

Essa foi a primeira de muitas outras que sucederam, era esse o tipo de literatura que buscou a vida toda, algo novo, emocionante, contundente, que fazia sair de si.

Mania, assim definiras tal jeito próprio de ser, mania de ser seja quem fosse, de fingir ser normal numa terra de loucos que viviam pouco, mas viviam como queriam. Vagavam todos trombando uns aos outros, tapando o ouvido para aquilo que parecia importante, mas despercebido passava já que tempo não era o forte de quem trombava com tudo que estranho fosse até que transformasse em normal e simplesmente passasse pelos olhos de qualquer um como comum.

Foi amando que se tornou grande, com sentimento de querer bem outrem leu num canto de carta jogado ao chão a oportunidade de mudar de vida, uma vida sem regalias, regada a muita emoção, muito choro, muito riso, muito amor de outros para outros. Roubaria de todos, a chance de dizer por letras o que achavam belo num envelope pardo colado com uma lambida simples na aba, selada como um segredo que desvendado seria apenas pelo destinatário. Assim esperava ser, pobre remetente, jamais receberia a resposta, sua mensagem parara nas mãos de um apaixonado pela vida incomum dos humanos.

Saqueava carteiros em busca de algo novo, alheio. Vivia absorto em muitas histórias inacabadas, absorvia de muitos o direito de pontuar finalmente com um ponto final, feliz dizia-se a única pessoa comum num mundo de doidos, vangloriava-se de admitir curiosidade pela vida do próximo e não se envergonhava em interceptar essas vidas e passar horas tentando desenhar na mente tudo o que passou a moça que escrevera ao namorado uma carta de despedida, dizia ela que não mais o veria, estava doente e em estado terminal, muito provavelmente estaria morta quando o namorado recebesse a carta. Pobre moça, o namorado nunca recebeu o recado e o ‘ladrão’ olhou, deu atenção por alguns dias, mas logo se atentou a outro caso. Simplesmente faleceu sem os pêsames merecidos ou não de um alguém que pra ela era importante.

Tragou a solidão ao ler companhias estranhas, mentiu pra si mesmo ao dizer ter amigos que nunca souberam quem ele era, chorou copiosamente muitas noites com contos de um ser sozinho que lia cartas de outros. Em uma noite qualquer, após mais uma sessão de leituras que parecia não ter fim, resolve parar e fazer algo para comer, ao pingar a gota de óleo no fundo da frigideira uma pequena faísca cai sobre um envelope que tinha na mão esquerda, papel fino logo entrou em chamas, no susto soltou-o no chão, quando percebeu já era tarde. Todo o canto do lugar estava totalmente tomado por papeis jogados e caixas empilhadas, foi o suficiente para um incêndio em toda a casa. Em desespero absoluto correu a escrivaninha para salvar as primeiras, a sequencia da cartas da filha do vizinho, não queria sair dali, iria com o sorriso no rosto de alguém que conhecia o bastante do mundo. Com a sensação de suicídio coletivo, pois todos estavam estampados nas cinzas de letras e ardiam no lugar. Não sentiriam sua falta, nem as cartas, nem carteiros, nem pessoas nem ninguém.

Quase como indigente falece mais um curioso, que lia a vida sem se preocupar em escrever a sua.

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