Conto de Março – Chuva de Dezembro

Chuva de Dezembro

-Com licença, comprei a passagem para o dia 04 de Janeiro, sei que hoje ainda é 31 de Dezembro e que devem estar todos os assentos lotados, mas será que pode trocar a passagem pra mim? Minha namorada precisa que eu chegue a São Paulo hoje, é um caso de vida ou morte, não sei o que fazer, pelo amor de Deus, me ajude!

_Calma moço, fique calmo. Os ônibus realmente estão super lotados, mas ao contrario do que pensa, estão lotados os que chegam aqui, não os que saem. Ninguém em sã consciência chega a um paraíso como esse em véspera de Réveillon e simplesmente vai embora. Portanto, seja lá qual for o motivo de seu desespero, pode ficar tranquilo. Há lugar no ônibus que sai às 13:00. Dê-me seu bilhete para eu trocar.

-É realmente urgente, se tivesse um lugar sentado na porta do banheiro para esse que está saindo agora às 11h seria ainda mais perfeito, não tem?

_É realmente parece ser grave seu motivo, mas infelizmente nesse não posso mais fazer nada. O motorista já deu partida, está saindo. Vai ter que ficar com o das 13h mesmo. Sente nos bancos, leia um jornal, logo chegará a hora de sua viagem, se acalme.

-Ok. Não me restam muitas escolhas senão esperar. Obrigado pela ajuda.

Apesar de toda a boa vontade da atendente, ela não podia entender o que eu estava sentindo, não tinha como medir a necessidade de ser atendido com maior brevidade. Não ouvira minha conversa ao celular, nem conhecia meu passado para entender que alguns minutos de diferença na saída do ônibus, podiam resultar em um encontro ou talvez num grandioso desencontro que se sabe lá quando seria desfeito.

Acabando bateria e créditos, essa mera de roaming come todas as orças do meu celular. Acho que ainda dá pra suportar até lá, devo chegar 18h no máximo, passarei a virada com ela. Acreditar e esperar, fazer o que mais? Ligar! Vou só ligar. Ela me xingou na ultima, mas vai gostar de saber que estou voltando.

Atende… Atende o celular…

-Oi Linda! Como você está?

_Oi, o que você quer? Não está bom no sol da paia?

-Não, não está. Estou voltando! Acabo de trocar minha passagem, chego já para ficar contigo. Errei. Não suporto ficar longe de você, já foi longe demais essa brincadeira.

_Não venha. Será viagem perdia duas vezes. Uma da sua praia frustrada e outra desse retorno estabanado. Não estarei em casa, já marquei de sair. Não vou ficar chorando verões sozinha essa noite.

– Me espere, conversaremos. Chegarei logo.

_Olha. Já esperei muito nessa vida. Já disse o que vou fazer, o que você fará, é um problema só seu.

-Irei. Encontro você antes de sair.

_Que seja. Boa viagem e boa sorte em chegar antes que eu saia. Tchau.

Ela desligou linda e delicadamente, deve ter pensado que pela distância, créditos e bateria estariam acabando, acertou.

Bom, ela disse que sairá para algum lugar, deve ir com algumas amigas, mas não creio que saia antes das 21h. Tenho tempo mais que suficiente para chegar antes disso e senão convencê-la a ficar comigo, ir junto para essa tal festa.

Já são quase 12:30, logo o ônibus encosta a plataforma. Assim que estacionar já vou entrar e tentar dormir, assim nem percebo a viagem.

Ah maldito tempo. Passa em minutos quando queremos que dure por horas, e justo hoje resolveu durar dias pra passar meros minutos. Parece que foi assim nos quatro anos que passei junto dela, lembro-me de tudo com os mínimos detalhes, a impressão que tenho é que aconteceu ontem, mas infelizmente não foi. Ontem eu estava no ônibus vindo pra cá, tentar esquecer o que fiz nesse tempo todo, buscando alguns dias de paz e uma forma de recomeçar, sem ela ou com, mas sentia que precisava de um tempo. Custa muito ajudar um pouco, ponteiro?

Foram mais alguns minutos e o grande ônibus chegou e estaciono, mal desceram os passageiros e eu já estava à porta, pedindo ao motorista que deixasse que eu esperasse lá dentro, não tinha bagagem para guardar, podia levar minha mochila no colo, mas precisava entrar logo. Não houve problemas, entrei, sentei e dormir que é bom, nenhum segundo.

A atendente do guichê tinha razão, não tinham mais de 15 pessoas em ônibus com capacidade de 40. Isso dava muito espaço para todos, pude ir bem relaxado, usando as duas poltronas como fosse uma cama, mas nem isso me fazia dormir, estava inquieto, não parava de olhar o relógio e ainda sonhava com uma mensagem dela dizendo que não sairia mais e que estava me esperando, perfumada e de braços abertos. Veio nada. Vinha só um enorme ensaio do que dizer pra convencê-la e largar fosse o que fosse pra voltar a ficar comigo, pensava em cada fala, tanto minha respondendo, como dela perguntando e confrontando, parecia não haver como dar errado, fechava os olhos e praticamente sentia sua respiração. Era só esperar mais algumas horas e não tremer demais na hora H.

Já passava da metade do caminho quando motorista reserva entra no corredor perguntando se alguém quer parar para ir ao banheiro esticar as pernas ou qualquer coisa do tipo. Nunca tinha visto isso, geralmente não davam chance para seguir a viagem sem paradas, ele explicou que como era véspera de Reveillon imaginou que todos estariam com pressa pra chegar logo e preparar as festas, inclusive ele. Pois é, acertaram, todos concordaram em seguir sem parar. Fiquei muito feliz, chegaria no mínimo 30 minutos antes do esperado, não ligaria nem pra dizer que cheguei, seria a surpresa pronta. Apesar de ela ter dito que não queria que eu voltasse, tenho certeza que uma chegada assim, amoleceria seu coração.

Enfim consigo dormir um pouco, agora estou mais tranquilo. Fecho os olhos, caio no sono e parece que sigo acordado, os sonhos são com ela, mas agora é muito mais real, tudo parece ganhar cor e vida. Cada minuto que eu durmo, acordo vinte. Já chove forte lá fora, as janelas estão embaçadas, espero que esse tempo não interfira no tempo de viagem.

Entre soneca e outra, acordo com um solavanco forte que me joga para a poltrona da frente, passando por sobre uma senhora que estava sentada. Ainda sem entender direito o que estava acontecendo, percebo o mundo em câmera lenta passando frente meus olhos. Já não tenho mais os óculos na face, mas vejo com extrema nitidez as malas , copos e roupas caindo. Parece que tudo está indo para o chão, que estamos em algum tipo de treinamento da NASA, porque tudo está flutuando desse jeito? Não me sobra tempo para gritar por ajuda, sinto o peso de elefante em um dos braços e quando olho, era bem piro que isso, o ônibus tombou na estrada, devo ter caído com o braço pela janela, só vejo sangue.

Era o inferno em meio as gotas daquela tempestade, gritos desesperados, muito desespero e na minha cabeça só vinha a imagem dela me esperado aquela noite e eu não conseguindo chegar a tempo. No meio de toda aquela bagunça, ouço a cerca de um metro de onde eu estava um barulho que parecia meu celular, estava chamando e só podia ser ela. Não tinha como sair dali, chorava como uma criança, não pela dor do braço que não parava de sangrar, mas pela dor incomparável de não poder dizer adeus.

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