Conto de Janeiro – Turma das 13

TURMA DAS 13

Rafael Ribeiro

****

_Senhor! Chegou sua hora. Por favor, deixe me entrar, prometo ser breve. – Falou do outro lado da porta, uma voz masculina, parecendo muito mais uma sequencia de gemidos.

_Vai doer? – Perguntou Jhony apreensivo.

_Eu posso prometer o que lhe digo. Serei breve. Por favor, abra! – Respondeu sem se identificar. Dessa vez com um tom de segurança na voz.

Parecia realmente saber o que viria fazer no quarto 107.

Ainda com muito medo, andou até a porta, abriu-a e viu uma enorme senhora, para sua surpresa toda aquela conversa tinha sido com ela e não com “ele”. Metro e muitos centímetros de altura, visivelmente passava dos 100 kg, braços maiores que o corpo de Jhony, chegou a ter dúvidas quanto a ser uma mulher. Se não fosse, era um homem afeminado, um enorme homem afeminado.

Mal abrira a porta e logo foi seguro pelo pescoço e suspenso a 15 cm do chão. Os pés balançavam feito louco em busca de apoio, não tinha força suficiente para golpear a mulher com chutes, não restava escolha senão entregar-se. Ela o segurou até ter o sinal claro que não restava sequer um sopro de vida, viu o rosto corar-se em vermelho, depois um tom de roxo, meio azul, até que a cabeça pendeu para a esquerda e o peso do corpo dobrou em seus braços. Num gesto de desprezo absoluto, jogou-o no chão, pegou a caderneta no bolso do jaleco e anotou “Johny Esperança. Morte súbita. Encaminhar ao próximo galpão.”. Rasgou a folha do caderno e jogou por sobre o corpo. Serviço feito, podia enfim descansar, como lhe haviam prometido, comeria tudo que suportasse até que aparecesse caso parecido, geralmente levava anos.

****

_Enfim Judith terminou o que pedimos!

_Juro que quase me esqueci daquela gorda. Se soubesse que levaria tanto tempo, teria eu mesmo ido até lá.

_Não diga uma asneira dessas! Voltaria de que jeito? Leva muito mais tempo até encontrar um alguém disposto a dar-te carona pra cá. Lembra como foi a ultima vez que fez coisa dessas?

_É, sei disso. Falei por falar. Mas hora, não perdemos nós o mesmo tempo que a balofa, vamos logo ao que realmente interessa, sacode esse trapo.

Johny ouvira toda aquela conversa, estava deitado sobre uma mesa clara, podia sentir a presença de pessoas em sua volta, nenhuma voz além das duas do bate papo curioso. Ergueu a cabeça para espiar onde estava e assustou-se ao ver que estava em um enorme cômodo branco, cercado de pessoas sentadas em uma enorme mesa, onde estava deitado. Assustou-se e levantou de sobressalto, nenhuma reação dos presentes, com exceção de dois que viam de longe o que acontecia. Ambos se olharam com sorrisos largos e logo deram as boas vindas ao recém-chegado.

_Olá Johny! Seja muito bem vindo. Aguardávamos ansiosos por sua chegada. – Falou o mais forte. Sujeito alto, não tanto quanto a tal Judith, roupa elegante, com um toque fino e despojado, camisa clara e calça reta, com sapatos pretos, cabelo liso e rosto sem um sinal de barba. Parecia realmente feliz em vê-lo.

_Oi Johny. Espero que não esteja assustado. – Disse o menor. Não parecia mais velho que o primeiro, devia ter a mesma idade. Esse vinha de fraque com uma gravata borboleta, chique demais, nem pareciam estar no mesmo ambiente apesar da elegância do primeiro, aquilo era demais.

Rápida olhadela em volta, na sala nada além de um monte de cor branca por toda a parte. Os sentados ao redor da mesa somavam 15, restava uma cadeira vazia. Todos vestiam roupas brancas, havia homens velhos, novos e três mulheres loiras. Johny desce com cuidado da mesa e para frente os dois sujeitos, estava curioso por saber o que estava ocorrendo, resolve perguntar.

_Onde est.. – Não saia mais voz. Mexia a boca para pronunciar a simples pergunta, mas nada de som. Sem entrar em desespero para de tentar e aguarda de pé que um dos dois comece a explicar o que está acontecendo. Para a surpresa de Johny, os dois seguravam as mãos um do outro e num som único emitiram uma voz terrificante.

_SENTE-SE! NÃO HÁ LUGAR PARA QUESTIONAMENTOS POR AQUI. TEVE MUITO TEMPO PARA PERGUNTAS E RESPOSTAS ENQUANTO ESTAVA NO QUARTO, PREFERIU TRANCAR-SE E ESPERAR SABE-SE LÁ PELO O QUE. POIS BEM, CÁ ESTAMOS. SE NÃO ERA O QUE QUERIA, SENTIMOS MUITO, MAS É O QUE TERÁ.

Sentindo as pernas tremerem feito bambu no vendaval, Johny virou-se para a cadeira vazia e sentou. Olhou para os outros e viu que nenhum esboçava qualquer reação em meio toda aquela cena, pareciam inanimados.

_BEM, COMECEMOS PELO COMEÇO. SIRVAM O BANQUETE! – Gritavam.

Como num passe de mágica, surgiam no ar travessas de prata e colocadas na mesa uma a uma, cada qual em frente a uma pessoa ali sentada, muita comida estavam servindo, jamais viram tanta fartura, um verdadeiro banquete. O medo de Johny foi passando ao ver que estava sendo bem tratado apesar de ter perdido a voz. Enfim podia ver que os outros pareciam vivos como ele, todos se mostravam satisfeitos com a comida servida.

Um senhor resolve pegar os talheres e iniciar a comer, enche o garfo com arroz e um pedaço de frango, CRAAACCK! Um estalo muito alto, e o braço do velho quebra, derrubando toda a comida no chão. O homem tem as articulações dos dois braços viradas do avesso, mãos viradas para o alto, antebraço enriste na direção aposta ao rosto.

_VELHO IMBECIL! PORQUE SEMPRE PASSAMOS POR ISSO? QUE FIQUE CLARO QUE SÓ PODERÃO FAZER O QUE QUEISERMOS QUE FAÇAM. NÃO ERA HORA DE COMER, PELO SIMPLES FATO DE NÃO TER DITO QUE ERA.

O medo volta a reinar na mesa. O homem chora de dor, mas não consegue abaixar os braços, o garfo pende em seus dedos que não se movem. Ninguém ousa levantar para ajudar, todos temendo por represálias.

_POIS BEM. PARECE QUE ENTENDERAM. PODEM COMER!

Sem agitação foram um a um pegando os talheres, com exceção do senhor que seguia com a fratura e não parava de chorar. Ao que todos pegaram os garfos e facas, CRAAACCK! Em uníssono, todos os braços quebrados. Dezesseis pares virados do avesso e mirando para o alto, todos com os talheres bizarramente apoiados entre os dedos. Era tudo pranto, quando os sujeitos se separaram, olharam-se e caminharam cada um para uma extremidade da mesa.

Aos poucos as pessoas a mesa puderam ver que conforme caminhavam, ambos deixavam um rastro de cor sobre o chão branco. Um deixava tudo azul, enquanto o outro passava por um tom de vermelho. Foram os dois em passos silenciosos, como se não tocassem o chão, o da cor azul (fraque elegante) chega ao fim da mesa e observa que metade da sala já era toda pintada de um azul marinho forte. O outro, por sua vez, chega à extremidade da mesa, vê o rastro de vermelho deixado e decide-se virar de cabeça para baixo, pintando assim todo o teto do lugar. Apenas 25% do lugar tinha a tonalidade azul.

_Você como sempre tomando conta da maior parte da sala. Porque insiste em demonstrar superioridade dessa forma? Sempre usando da mesma artimanha, o histórico mostra o que realmente é efetivo por aqui. Hoje, parece que veremos um pouco mais do mesmo. – Calmamente questionou, tendo que olhar para cima para conversar com aquele que sorria alegremente.

_Haha. É mais forte que eu, lamento mais uma vez fazer você passar por esse constrangimento diante de nossos convidados. Mas agora é tarde, como dizem nas outras bandas, ‘Inês é morta!’ ou se preferir ‘Não choremos a morte da bezerra’. Vamos logo ao que interessa. – Respondeu, demonstrando ansiedade pela conclusão daquele banquete.

_Ok! Prossigamos. – concordou. Antes de direcionar a fala aos sentados – Lamento terem passado por tudo isso, quero primeiramente pedir desculpas e garantir a vocês que não sentirão mais dor alguma.

Todos se olhavam aliviados, não havia mais sinal de dor, sequer lembrança daquilo que sentiram minutos atrás.

Toda a comida ainda posta frente cada pessoa, todos com muita fome e ainda com os braços erguidos contra a vontade.

_Pois bem, já não têm mais do que reclamar. Aliás, nem que quisessem. Só nós podemos falar por aqui. Agora que temos a mesa completa, quero reiterar as boas vindas. Estão aqui por motivos diferentes, em comum apenas o fato de terem deixado a vida na Terra há pouco mais de 1 hora. Fazem parte da turma das treze horas, na sala ao lado já devem estar chegando os primeiros das quatorze. Portanto quero que comam! Seja como for, mas quando mandarmos. – Introduziu de cabeça para baixo. Depois fez sinal para que o outro seguisse com a explicação.

_Já devem então desconfiar que aqui seja o que alguns chamam de purgatório ou pré-julgamento. Pensem e chamem do que quiserem, nada mais é, que um banquete. Ao final levarei os que merecem comigo, os outros vão com meu amigo. – Explicou conciso. Parecendo que a pressa tinha lhe acometido. – Poderia, por favor, descer daí? Precisamos terminar logo com isso. – Chamou. Quase que ordenando o que se pendia como morcego no teto.

Sem esboçar desaprovação pela chamada em público, desceu rapidamente. Parou na linha que dividia as cores da sala e aguardou que o outro chegasse ao mesmo ponto. Lado a lado juntam as mãos novamente.

_JÁ SABEM ONDE ESTÃO E O QUE FAREMOS. COMAM! TEMOS PRESSA.

Garfos de três pessoas logo caíram no chão e seus donos desesperados tentam de toda forma pegar a comida com as mãos. Comida virada por toda a parte, uma sujeira enorme e nenhuma comida chegava às bocas. Em prantos, com medo, olham trêmulos para os dois que ainda estavam juntos a rir daquela cena.

Os outros conseguiram fechar os dedos em volta os garfos e ainda se esforçavam para comer, deitavam o corpo sobre o prato, chegavam à boca bem perto da borda, mas ainda não era suficiente. Parecia realmente que não teriam a ‘ultima refeição’.

Os dois se separam, olham-se brevemente e o que vinha dominando a sala com a cor vermelha baixa a cabeça, volta para o teto e resigna-se:

_Pois bem, parece que venceu novamente.

_Não fique assim. Quem sabe na próxima deixo você ficar com o azul. – zombou – E, por favor, pare com essa bobeira de dominar teto e tudo, logo não terei mais onde ficar com esse show todo.

_A fome do egoísmo insiste vencer a sede por carinho.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s